Mapas do Acaso


Blesé
 

   Se você conseguir ouvir o som de acordes mal tocados ecoando neste texto, é que eu acabei de tocar meu violão e, bem, não domino a estranha arte da música ou a de escrever textos e um acaba atrapalhando a outra. É engraçado perceber que mesmo não dando muita atenção a algumas coisas, os acordes, por exemplo, continuam no quarto ecoando, assim como os textos na minha cabeça. A perfeição e a música não necessariamente andam juntas, e é incrível como uma não faz falta a outra. Como na leitura ou escritura de um texto a perfeição é o que menos importa. O que importa é o que me falta descobrir para eu entender o que eu ainda não entendo, parafraseando Raul Seixas.
   O período acabou e eu tenho lido um bocado de textos, li um do Octavio Paz que falava da singularidade do povo mexicano, que é tão diferente dos demais hispânicos e nós nem nos atentamos ao México e a especificidade de sua cultura. Ele se chamava ‘una sociedad singular’. Um texto muito bem escrito por um cara que se você não conhece, amarre uma corda no pescoço e só salte se não for para procurá-lo. Ele aborda o tema da irregularidade histórica do povo e da literatura (a barroca) hispano-americana, em especial a mexicana, e é essa característica que me fez tocar nesse assunto, caso você esteja se perguntando: ¿Como é que ele foi parar nesse assunto? Blesé.
   Acordes mal tocados, civilizações mexicanas antigas e irregularidade ... Estou tentando chegar a um meio termo dessa semana. A música não sai da minha cabeça. Estou querendo entrar num estúdio e gravar tudo de uma vez, sem respirar, sem parar: violões, piano, guitarras e sintetizador, tudo numa mesma vibração, mas não dá. Aí, eu me peguei tendo que escrever um trabalho sobre o barroco hispano-americano. ¿Entendeu o porquê do Octávio Paz, curioso leitor? Veio bem a calhar, tudo isso me deu idéia para uma nova canção, e para esse texto. Este não é lá essas coisas, mas o período acabou de acabar e a vida de começar, espero ter muito o que escrever nessas férias de três míseras semanas. Há, espero ter como gravar, porque o que gravar eu já tenho faz tempo.
 



 Escrito por Gabriel Poeys às 16h21 [] [envie esta mensagem] []






(ao som de:)

Salvapantallas

Tengo tu voz,
tengo tu tos,
oigo tu canto en el mío.

Rumbos paralelos,
dos anzuelos
en un mismo río.

Vamos al mar,
vamos a dar
cuerda a antiguas vitrolas.

Vamos pedaleando
contra el viento,
detrás de las olas.

Tengo una canción
para mostrarte,
talvez cuando vaya….

Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.

Años atrás
de pronto la casa
se llenó de canciones.

Músicas y versos
que brotaban
desde tantos rincones.

Vamos al mar,
vamos a dar
guerra con cuatro guitarras.

Vamos pedaleando
contra el tiempo,
soltando amarras.

Brindo por las veces
que perdimos
las mismas batallas.

Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.

                           Jorge Drexler

Ao que me parece, as coisas estão dando certo demais para o azarado aqui. Só o que não vai pra frente é a minha vontade de levar as coisas adiante, isso inclui o curso de letras, que atualmente, é uma pedra no meu sapato. Dele não saio dele ninguém me tira, até quem já tentou hoje quer me ajudar e até me estendeu a mão e se rendeu. Hoje não sei mais em quem confiar, as ruas do Rio de Janeiro levam agente a lugares que a nossa cabeça só imagina. Aí, não adianta encher a cara ou fumar dez cigarros, o protetor de tela tem o mesmo irônico sorriso que se repede sempre que se para por muito tempo. Eu estou parado.

Numa louca e alucinada busca por meus poemas eu me vejo sem escrever faz algum tempo. Tempo suficiente para o sorriso voltar. Olha que eu havia dito que tudo está dando certo, bom, até que eu pare. Amanhã eu vou dar uma corrida, ver a partida de futebol e beber uma cerveja bem gelada, e se no final o Flamengo não ganhar, não importa, eu bebo outra. Estudarei latim ou assinarei minha primeira reprovação em três anos e meio de faculdade (sempre tem uma primeira vez) e lerei um pouco de Caeiro antes de me recolher.

A poesia volta, há se volta. Na real, ela nunca sai, nunca me deixa, eu é que não estou atento o suficiente à ela, não deixo que ela se mostre para mim. Não confio nela, em ninguém. Estou cansado, mas não quero parar, estou morto, mas não quero morrer, estou roto e assim será. Tenho um sorriso na memória eu um no meu computador, tenho sete dentes a menos e um musical na cabeça, uma canção para mostrar, mas ninguém para ouvi-la, digitar não é o meu forte, nem canções. Estou com sorte.

Rio de Janeiro, 28 de Junho de 2008.



 Escrito por Gabriel Poeys às 23h51 [] [envie esta mensagem] []






Fuck Yoga

Tenho andado meio desinteressado. Final de período, provas, trabalhos, latim, espanhol, português.É um emaranhado de falta de direção e sentido, e não me vejo mais com paciêcia para com a faculdade. Fecho os olhos e ligo o automático. Mas nem tudo são trevas, meu temido português acaba quarta-feira e eu deixo para trás três anos de obrigações semanais. Sem terapia nem soluções mágicas, o tempo deu um jeito e agora que ele passou tenho que voltar a me desinteressar por outra coisa. Alucinado.

Alucinação

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais...

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...

Belchior



 Escrito por Gabriel Poeys às 19h47 [] [envie esta mensagem] []






Silenciosa

Eu nunca fui à Limeira
Nem me sinto como se estivesse lá
Mas algumas vezes sinto esse gosto azedo
E a vontade de correr pelos campos
Sair do caos e do cosmos
Tocar as flores uma vez só
Nadar como outrora em rios que nunca vi
Sentir o cheiro que me dissera ser agradável e
Morrer, quem sabe, um dia, como tu o fizestes
De maneira calma a aprazível.
Vencer o tempo num lugar onde só quem corre
Somos nós
Ao sabor do vento e dos inúmeros aires

Não faço a menor idéia de como chegar lá
Nem posso mais perguntar-te, pois te calastes
Para o mundo, para o caos e nossos olhos.
Fito-te numa louca procura por mim mesmo
Pelo sangue que em minhas veias não corre mais
Mas que nas tuas nunca houvera
Ainda sim souberas e como souberas
O que eu não sei.

Rio de janeiro, 05 de junho de 2008.



 Escrito por Gabriel Poeys às 12h50 [] [envie esta mensagem] []






“Se eu tivesse a força que você pensa que eu tenho, eu gravaria no metal da minha pele o teu desenho.”

Pela primeira vez eu comento algo neste blog. Por favor, não leiam este ou qualquer outro poema com o único intuito de tentar me encontrar, sei que sois meus amigos (a maioria), mas seria limitar vosso potencial e do poema. Libertem-se.


Sobre gustos y disgustos

A cozinheira perdeu o paladar
E tem agora uma nova tatuagem.
E a faxineira que perdeu a vassoura e não quer
Mais saber de faxinar, jogar as coisas pra debaixo do tapete.

Tenho um tapete voador que me leva aonde eu quero ir.
Uma mão para a cozinha e um paladar apuradíssimo
Que não me levam a lugar algum, sou pobre e fodido,
Um amante das palavras das mulheres das comidas das bebidas.

Tenho um sorriso que não me sai da cabeça,
O estômago embrulhado como se fosse para presente
E uma morte lenta como o pingar do detergente

Não há ninguém presente no meu velório.
Somente a cozinheira a que eu tanto pedi que
Perdesse o paladar.

Rio de Janeiro, 25 de maio de 2008.



 Escrito por Gabriel Poeys às 15h03 [] [envie esta mensagem] []






Terapia

Pela fé que eu tenho nos outros eu já devia
Ter ido, dessa para uma pior, mas fico. Ando.
Olhos as casas do bairro, as ruas são tantas.
Números, inúmeros. Mas não tem ninguém
No mundo. É tarde.
Todos já estão apagados, no milésimo sono.
Os cães latem ao me ouvir passar, felinamente.
Mas não dou bola.
O que me assusta é o que não ouço
E espreita entre os carros estacionados
¿Será que é a minha sombra o que me assusta?
Acho que estou me assustando por nada,
Ultimamente.
Desconfio que alguém me espreita. Na verdade,
Desejo isso. Ser visto ¿sou visto?
Vistoso, um carro é roubado, felinamente.
Não dou bola.
Tenho coisas mais importantes ‘pra’ pensar.
Distraio-me com uma menina que faz ponto
Na esquina. Estou duro. Sigo.
O semáforo não é respeitado a essa hora
Nem por pedestres. Sigo.
Quando estou prestes a chegar em casa, eu
Giro, vou na direção da menina,
Na intenção da noite
Vazia, a não ser por nós dois e por um
Terceiro que a minha imaginação encarna.
Essa é a melhor hora para se caminhar
E para que se perceba o quão vil e
Sombria pode ser a noite humana.
Nós não latimos por barulho, nos escondemos,
Nos vendemos e a omitimos.
São nove horas da noite e eu sigo
Felinamente duro em direção ao desconhecido
Bando de praça, aonde ninguém vai
Domingo. Sozinho. No rio de Janeiro.
   
Rio de janeiro, 17 de Julho de 2007.



 Escrito por Gabriel Poeys às 15h16 [] [envie esta mensagem] []






Three little man wondering about the past
Only one will reach there 'cause' he’s faster
And the other two still on the first line
Thinking of their last glass of wine.

 Escrito por Gabriel Poeys às 18h31 [] [envie esta mensagem] []






Sons estanhos ecoam das marquises habitadas por povos desconhecidos
Nas ruas escuras que o Rio de Janeiro omite.
Não há uma só alma viva nesse canto de nada!
Eu não ando por aí, ninguém deveria.

A comida acaba um dia e a fome aperta
Dos males o menor desperta e a faca na certa
Não corta carne morta
Mas as rimas desta estrofe

Sei que de tudo restou um pouco
Mas restou mais a fome, muita,
Que aos poucos passa pela cabeça

E era melhor estar morto ou com sorte.
Mas durmo,
Na marquise desabitada e escura de uma metrópole.

Rio de janeiro, 09 de Maio de 2008.



 Escrito por Gabriel Poeys às 19h11 [] [envie esta mensagem] []






Desencontro

Sentei-me, como de costume, do lado de fora
E daqui, de onde me encontro,
Não vejo nada.¡Não passa nada!
Está tudo tão parado que eu tenho vontade de pensar em mim.
Como se eu estivesse doente.

Em mim e alheio a mim, me encontro.
Nessa busca que, ao acaso, comecei
Encontrei várias pessoas entre as quais eu estava,
Eventualmente.
Estava triste e feliz às vezes, mas na maioria das vezes
Eu estava alheio a mim

Levanto-me e olho em volta.
Vejo se há alguém de verdade por aqui.
¿Todos são de mentira?
Não há ninguém por aqui
Estou inevitavelmente, invariavelmente só.

Rio de janeiro, 05 de dezembro de 2006.



 Escrito por Gabriel Poeys às 18h34 [] [envie esta mensagem] []






Sorte e acaso, ¿Quem sabe do que depende?

Esse é o primeiro post deste blog, e como todo primeiro post ele vai de nada a lugar nenhum, como todos nós em alguma parte de nossas vidas. Essa é a parte da minha vida em que se tivesse uma bússula, não faria diferença alguma, ¿fazer o quê? "Bola pra frente, bola pro chão". Aos que adentrarem nesse mundo só o que encontararam é a mim e a mim não encontraram. Bienvenidos!



 Escrito por Gabriel Poeys às 23h49 [] [envie esta mensagem] []




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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, REALENGO, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Gastronomia, música,futebol,literatura,cães e poesia
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